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Educação Física e atividades esportivas: qual seu papel na iniciação desportiva, educar ou jogar?






    O comportamento ou atitudes dos seres humanos, é determinado por um motivo, no aspecto esportivo isso não é diferente. A busca pela prática, assim como o sucesso ou insucesso em uma modalidade esportiva, é, por si só, a exteriorização de um desejo determinado anteriormente por fatores diversos.

    Segundo Mattos et al. (1999) a importância de salientar que o desempenho técnico de uma criança está ligado às suas capacidades motoras, a fim de que, tenha domínio sobre as técnicas de um desporto, uma vez que, a criança está ligada ao movimento, o qual poderá proporcionar a oportunidade de expressar-se espontaneamente sua criatividade. Nanni (1998), esclarece que as práticas escolares esportivas são parte das atividades desenvolvidas como elementos das aulas de educação física, visando o desenvolvimento das capacidades atléticas dos diferentes tipos de esportes individuais e coletivos.

    Ensinar um esporte é a base da educação física, visto que há uma relação com a iniciação desportiva, o que, propicia a criança um maior estímulo quanto aos aspectos psicomotores, facilitando o aprendizado das técnicas específicas de cada modalidade esportiva. Pode-se considerar que na aprendizagem esportiva é fundamental uma aprendizagem corporal e motora. Aprender e praticar um esporte é adaptar algumas técnicas corporais básicas às características da modalidade esportiva, já que as técnicas individuais aplicadas na prática do jogo são reflexo de aspectos motores de cada individuo como equilíbrio, ritmo, coordenação espacial e temporal. No começo do aprendizado é normal que os gestos motores sejam executados com insegurança, sem coordenação e imprecisos, sendo aí considerada a iniciação desportiva (MATTOS et al., 1999).

    Para Hildebrandt–Stramann (2003) os estudos críticos da área de educação física, apontam o esporte como meio de reprodução de valores presentes na sociedade industrial, conseqüências do uso de metodologias que preconizam a "comparação objetiva" e o "sobre – pujar".

    Valorizar a vitória, ganhar tudo e a todos, chamar a atenção do aluno perante os outros, não ouvir as sugestões das crianças, seriam em alguns erros pedagógicos adotados pelo professor que influenciam na internalização dos valores pelas crianças.

    A influencia da mídia e da indústria cultural, onde em muitos casos, leva a influenciar de forma global a maneira de ser e agir dessas crianças. Conforme Hildebrandt–Stramann (2003), há esportes que são vinculados pela mídia que se tornam a mais forte referência, e assim, o rendimento é reproduzido em diversas situações como se fosse o único modelo de prática esportiva a seguir, o que, às vezes, parece ser uma causa do conflito entre educação e esporte. Rago (1997), salienta "há necessidade de preparar as crianças para este mundo produtor, elas serão os grandes de amanhã". Este slogan futurista ainda perpetua na atualidade nesta visão funcional e mecanista, visto que a vida adulta já é planejada e definida na infância.

    Neste sentido buscou a partir de buscas na literatura levantar algumas questões sobre a importância das atividades esportivas no comportamento de crianças, quanto sua função: educar ou jogar?

2.     Motivação na prática da atividade esportiva

    A todo instante, somos cercados por determinadas situações, que promovem em nós novos estímulos os quais são suficientes para realizarmos uma tarefa ou até mesmo desistir da mesma. A razão pela qual se enfrenta a dificuldade é reflexo, não só da coragem e vontade, mas sim, esta diretamente ligada ao aspecto motivacional (CRATTY, 1983).

    A busca em compreender as conseqüências do esporte infantil é representada por um problema que se apresenta quando uma criança inicia seus treinamentos. Segundo Cratty (1983) o grande entrave esta em saber "qual o motivo que levou a praticar essa modalidade esportiva", pois dependendo do fator, o qual determinará o tempo de permanência desta criança na respectiva modalidade.

    A motivação intrínseca está ligada ao processo de satisfação de necessidades primárias e internas da criança e especificamente ao prazer de executar determinada tarefa. Facilidade, dificuldade, complexidade, novidade são alguns fatores que intrinsecamente impulsionam a criança a realizar determinada tarefa que lhe é apresentada (RAGO, 1997).

    Hunter (1982) relaciona a motivação intrínseca e o sucesso como sendo um comportamento pré-determinado, ou seja,

    ...em geral, as pessoas obtêm mais sucesso nas atividades que lhes interessam; e sucesso, por sua vez, tende a apresentar maior interesse. Por essa razão, o grau de sucesso torna-se uma importante variável na motivação. Poucas pessoas continuam motivadas em atividades onde sente que obteve pouco ou nenhum sucesso (p. 31).

    Na opinião de Cratty (1983) motivação extrínseca, caracteriza-se pela motivação de natureza exterior ao indivíduo, é reforçada por modelo, pelo oferecimento de prêmios materiais, reconhecimento social, de natureza externa e que compõe alguns dos pressupostos básicos da tarefa.

    O autor refere-se ainda que se aplicarmos constantemente recompensas externas, a criança pode receber uma motivação que vai modificar a forma de expressar-se na tarefa. Em conseqüência, a probabilidade da criança tornar-se motivada intrinsecamente diminui, e como caráter negativo pode criar um fato de dependência externa (medalhas, prêmios, troféus, etc). Ao contrário, outras pesquisas atribuem o fato das recompensas externas, isto é, dos prêmios oferecidos a crianças serem os responsáveis para que a criança tome consciência ou mesmo perceba que não tinha controle da situação, do sucesso ou fracasso na realização do esporte.

    Para muitos estudiosos da área, deve-se levar em consideração os aspectos acirrados no advento da sociedade mecanizada e industrial, que muitas vezes sobrecarrega as pessoas, trazendo cobranças, quanto a bons resultados. Segundo Santin (1994), as práticas esportivas constituem, hoje, um sistema sócio-cultural construído como parte da cultura do movimento humano e enquanto fator decisivo no processo de socialização do ser humano. O esporte, principalmente de rendimento, contempla os valores de produtividade e competitividade da sociedade capitalista, reforçado pelos meios de comunicação de massa, refletindo significativamente na infância.

    Entender o esporte como um conteúdo da cultura corporal do movimento, para Libâneo (1994) é considerar as atitudes e convicções sendo um dos elementos que convergem para a aquisição das capacidades congniscitivas, considerando-as como "a maneira de agir, sentir e se posicionar mediante tarefas da vida social, dependendo do conhecimento e desenvolvimento das capacidades mentais."

    Considerando o esporte como um fenômeno social permeado de valores, cabe lembrar, segundo Costa e Silva (2002) o homem só se humaniza em contato com a sociedade humana, já que, receberam justamente com a linguagem, as noções e os valores que iluminarão e guiarão sua vida.

3.     Esporte de rendimento

    Conforme Huinzinga (1996) a tensão e a solução fazem parte do universo esportivo, onde encontramos tensão em buscar saídas, soluções para uma situação adversa. A incerteza do resultado final, promove nos atletas um empenho maior de habilidades e conhecimentos para solucionar os problemas encontrados no decorrer da atividade. Kunz (1991, p.39) destaca que é importante evidenciar, no universo esportivo, que "[...] a linguagem verbal é apenas uma das formas do ser humano se comunicar. As crianças, especialmente, comunicam-se muito pela linguagem do movimento."

    A transgressão às regras, o dinheiro envolvido e o mercado futebolístico acabam coibindo o jogo, o atleta e o treinador, de praticar o esporte com ludicidade e criatividade. A derrota ou a perda de um campeonato implica em perda de lucro e patrocínios, e, conseqüentemente, de dificuldades na sobrevivência dos clubes e das empresas que investem quantias significativas e exigem resultados que correspondam ao investimento. Dentro deste contexto, muito se tem falado, uma vez que a preocupação da sobrevivência do esporte tem alertado a todos sobre o abandono do mesmo, visto que a preconização de jovens atletas e sua especialização são hoje a marca de um mercado que desbrava a busca de crianças como futuros craques (BETTI, 1997).

    Por isso verifica-se que quando a criança participa de uma competição, busca literalmente "lutar" para alcançar um objetivo incerto e desafiador, fazendo-a superar suas limitações, vencer por seu esforço, superando a tensão que se faz presente antes e durante a competição.

    Estudo realizado por Saraiva (1999) aponta a existência de um discurso que justifica o sexismo inerente à iniciativa esportiva. A justificativa estaria na preferência dos meninos por esportes mais violentos e expansivos e das meninas por esportes mais delicados e que valorizem a apreensão.

    Corrêa (2004) relata que em estudos realizados em escolas públicas, foi observado que nas aulas mistas, comumente, os meninos optavam pelo futebol enquanto as meninas preferiam jogar voleibol. Superar as atitudes sexistas ainda é um desafio para os educadores.

    Os estudos de Bracht (1992) e de Kunz (1991) demonstram que a iniciação esportiva escolar e não escolar incorporam os valores dos esportes institucionalizados. Diante disso, a luta contra o sexismo perpassará a educação formal e informal e exigirá ações que viabilizam a prática esportiva mista em todas as categorias.

    O esporte dentro da educação formal e informal pode ser encarado como uma opção de lazer, neste sentido, Kunz (1991) nos diz que a recreação caracteriza-se mais como um estado psicológico na realização de uma atividade, onde se evidenciam a liberdade, o brinquedo, a criatividade, o lazer, a alegria, o prazer e a satisfação.

    A não realização de competições mistas, muitas vezes, é para proteger os atletas homens, visto que os dirigentes esportivos são do sexo masculino (TAMBURRINI, 2003). Conforme Costa e Silva (2002), as turmas mistas não garantem a co-educação, pois esta depende da igualdade de condições entre meninas e meninos, sem que se valorizem os interesses de uns em detrimento de outros.

    Ainda em relação a esta questão do esporte, Santin (1994) salienta que as atividades corporais podem e devem, através do jogo e do esporte, exercitar a criatividade, a liberdade, a alegria e o bem estar. Para Araújo (1992, p.15) "[...] a alegria proveniente do ato de jogar conduz o jogador a perder a noção real do tempo pelo tempo de sua própria vontade e satisfação."

4.     Atividades esportivas e a relação com o comportamento

    Segundo Santin (1994) a motivação para o esporte, induz as crianças a pensarem não só como lazer, mas como meio de profissionalização, destacando a grande influência dos meios de comunicação que mostram a trajetória de alguns atletas que se tornaram ídolos e exemplos a serem seguidos, trazendo como conseqüência uma possibilidade de ascenção social.

    A prática de um esporte proporciona às crianças se afastarem da televisão, vídeo game e computador, ao mesmo tempo em que estão exercitando-se e divertindo-se de maneira mais criativa e saudável (SANTIN, 1994).

    Bracht (1992) e Kunz (1991) abordam o esporte como instrumento de socialização e integração social, oportunizando o trabalho com vários papéis sociais. A influência do esporte na socialização é um aspecto muito importante, pois o esporte além da formação corporal e a iniciação desportiva, busca a socialização, o diálogo e a igualdade de condições, permitindo que o praticante passe pelas atividades propostas nas aulas.

    A disciplina e o respeito às regras evidencia-se na aprendizagem e seguimento das normas referentes ao desporto trabalhado, e também na ênfase dada às habilidades e atitudes necessárias ao convívio social como ordem, honestidade, lealdade e à hierarquia. No contexto social, a vivência destes valores, torna-se meio de orientação e conscientização dos alunos, quanto seus direitos e deveres (LIBANEO, 1994).

    Por meio do esporte e dos jogos recreativos é possível desenvolver o espírito de grupo e companheirismo. O trabalho em equipe possibilita desenvolver valores como respeito ao adversário, solidariedade com o companheiro de equipe, respeito às regras do jogo, igualdade de condições, cooperação, prazer e alegria na realização da atividade (BRACHT, 1992; SANTIN, 1994).

    Oportunizar uma vivência satisfatória e eficaz ao aluno baseado em valores democráticos, proporcionando a participação em todas as atividades. As crianças que vivenciam situações onde são consideradas protagonistas tendem a melhorar a auto-estima e a capacidade de comunicação, pois conseguem, através de trabalhos em grupo, comunicar-se e entender a comunicação dos outros, o que torna a convivência prazerosa (LIBANEO, 1994). Bracht (1992) afirma que não é possível a escola se eximir de sua função que é reproduzir ou modificar valores em sua prática educativa que estão presentes na sociedade.

Considerações finais

    A falta de preparo de profissionais da área e a utilização do esporte como ferramenta de rendimento acaba dispersando e agredindo o verdadeiro papel e função da educação física. Desta forma, a partir de uma abordagem literária, buscando fundamentar e direcionar a função e suas formas mais coerentes de utilização do esporte como ferramenta no trabalho com crianças, conclui-se que todo espaço destinado ao trabalho de desempenho, o qual deverá garantir através dos termos trabalhados a propagação de valores e atitudes que auxiliem na formação de cidadãos éticos e responsáveis.

Referências

  • BETTI, M. Violência em campo: dinheiro, mídia e transgressões às regras no futebol espetáculo. Ijui:UNIJUÍ, 1997.

  • BRACHT, V. Educação Física e Aprendizagem Social. Porto Alegre: Magister, 1992

  • CORRÊA, I.L.S. Co-educação na iniciação esportiva: o sexismo em questão. Anais do 2º Congresso Sulbrasileiro de Ciências do Esporte. Criciúma: CBCE/UNESC, 2004.

  • COSTA, M.F.; SILVA, R.G. Educação Física e a co-educação: igualdade ou diferença? In Revista Brasileira de Ciências do Esporte. V. 23, 2 Campinas: Autores Associados/CBCE, 2002.

  • CRATTY, B.S. Psicologia do Esporte. Rio de Janeiro: Prentice-Hall do Brasil, 1983.

  • HILDEBRANDT-STRAMANN, R. Textos Pedagógicos sobre o ensino da Educação Física. 2ª ed. IJuí: UNIJUÍ, 2003.

  • HUINZINGA, J. Homo Ludens. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.

  • HUNTER, M. Teoria da Motivação para Professores. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1982.

  • KUNZ, E. Educação Física: Ensino e mudanças. Ijuí: UNIJUÍ, 1991.

  • LIBÂNEO, J.C. Didática: Série Transformação do Professor. São Paulo: Cortez, 1994.

  • MATTOS, M.G. et al. Educação Física Infantil: construindo o movimento na escola. 2.ed. São Paulo: Phorte, 1999.

  • NANNI, D. Dança Educação: Pré –escola à Universidade. 2.ed. Rio de Janeiro: Sprint, 1998.

  • RAGO, M. Do cabaré ao Lar: utopia da cidade disciplinar. Brasil:1890-1930. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

  • SARAIVA, M.C. Co-educação Física e Esportes: quando a diferença é um. Ijuí: UNIJUÍ, 1999.

  • TAMBURRINI, C. O retorno das amazonas. EFDeportes.com, Revista Digital. 2003. Disponível em: http://www.efdeportes.com/


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