Header Ads

O que é lateralidade e como trabalhar na prática

  

Poucos conceitos da psicomotricidade são tão mal compreendidos no cotidiano escolar quanto a lateralidade. A versão simplificada que circula nas salas de professores costuma reduzir o assunto a uma única pergunta — "a criança é canhota ou destra?" — como se a lateralidade fosse apenas uma preferência de mão que se descobre cedo e pronto, assunto encerrado. Essa leitura não está errada, está tão incompleta que acaba sendo inútil na prática. A lateralidade é um processo de desenvolvimento neurológico que envolve a organização de todo o corpo em torno de um eixo, a definição progressiva de um lado dominante para diferentes funções e a capacidade de usar os dois lados de forma coordenada e complementar. Quando esse processo se consolida bem, a criança lê, escreve, se move e organiza o espaço com muito mais eficiência. Quando ele fica incompleto ou mal estabelecido, os sinais aparecem de formas que o professor vê todos os dias sem necessariamente saber nomear.

O que a lateralidade realmente é

Do ponto de vista do desenvolvimento, a lateralidade começa a se organizar ainda na primeira infância, a partir das experiências motoras que a criança tem com o próprio corpo. Ela não nasce definida — ela se constrói. O cérebro humano é dividido em dois hemisférios que, ao longo do desenvolvimento, vão assumindo especializações diferentes, e a lateralidade é a expressão corporal dessa organização cerebral. Um hemisfério vai se tornando dominante para determinadas funções — linguagem, coordenação dos movimentos finos, processamento sequencial — e o corpo vai respondendo a isso com uma preferência lateral que se manifesta não só na mão, mas também no pé, no olho e no ouvido. Uma criança com lateralidade bem definida usa o lado dominante com precisão e fluidez, enquanto o lado não dominante assume o papel de apoio e complemento. O problema surge quando essa definição não acontece — quando a criança oscila entre os dois lados sem estabelecer uma dominância consistente, o que é chamado de lateralidade cruzada ou indefinida.

Como a lateralidade mal definida aparece em sala

O professor que sabe o que procurar vai encontrar sinais de lateralidade indefinida ou cruzada em situações muito concretas do dia a dia. A criança que troca letras simétricas — o "b" pelo "d", o "p" pelo "q" — com frequência e persistência depois do período esperado está, muitas vezes, revelando uma lateralidade que ainda não se organizou o suficiente para dar consistência à orientação espacial no plano do papel. A criança que começa a escrever pela direita e em algum momento da linha passa a mão para a esquerda, ou que troca de mão dependendo do lado da folha em que está escrevendo, está mostrando ao professor que a dominância ainda não se fixou. A que chuta a bola ora com o pé direito ora com o esquerdo sem nenhuma consistência, que usa qualquer mão para pegar objetos dependendo de qual está mais perto, que cruza os braços de formas diferentes a cada vez que o professor pede — tudo isso são dados que, juntos, compõem um quadro que pede atenção e intervenção.

1. Atividades com cruzamento da linha média

A linha média é uma fronteira imaginária que divide o corpo em lado direito e lado esquerdo, e cruzá-la com os membros é uma das formas mais eficazes de trabalhar a integração entre os dois hemisférios e, por consequência, a organização da lateralidade. O professor pode propor atividades simples como pedir que a criança toque o joelho direito com a mão esquerda e vice-versa em sequência, que desenhe grandes círculos no ar cruzando o braço para o lado oposto do corpo, ou que, durante uma dança, leve a mão direita ao ombro esquerdo do colega. Essas tarefas parecem simples para crianças com boa integração hemisférica — e revelam imediatamente quais crianças ainda têm dificuldade com esse cruzamento, porque elas travam, hesitam ou simplesmente não conseguem executar o movimento sem perder o ritmo.

2. Circuito com dominância definida

Montar um circuito em que cada estação exija o uso de um lado específico do corpo é uma forma de trabalhar a consciência lateral de forma lúdica e progressiva. Em uma estação, a criança chuta a bola sempre com o pé direito. Em outra, carrega um objeto só com a mão esquerda. Em outra, equilibra-se em um pé só — primeiro o direito, depois o esquerdo — por alguns segundos antes de avançar. O professor observa não só qual lado a criança prefere naturalmente, mas também como ela lida com a instrução de usar o lado não dominante: se consegue fazer isso com relativa facilidade, se resiste, se perde o equilíbrio com muito mais frequência de um lado do que do outro. Essa observação é tão ou mais valiosa do que a própria execução da atividade.

3. Jogo de espelho com foco lateral

No jogo do espelho descrito no texto anterior, quando o foco é a lateralidade, o professor adapta os comandos para trabalhar especificamente a percepção dos lados do corpo. Uma criança fica de frente para a outra e o professor diz: "levante o braço que está do lado da janela", "mova a perna que está do lado da porta", "gire o ombro que está mais perto de mim". Essa variação é particularmente útil porque desvincula a lateralidade da nomeação direta de direita e esquerda — o que permite trabalhar a percepção espacial com crianças que ainda não consolidaram esses conceitos verbalmente, mas que precisam desenvolver a consciência dos lados do corpo na prática antes de nomeá-los com consistência.

4. Atividades com instrumento em mão definida

Propor que a criança pinte, recorte, empilhe blocos ou encaixe peças usando sempre a mesma mão, de forma consistente ao longo de várias sessões, ajuda a consolidar a dominância manual nas crianças que ainda oscilam. O ponto importante aqui é que o professor não deve forçar a troca de mão em crianças canhotas — isso é um erro que já custou muito para muitas gerações de crianças e que não tem nenhuma justificativa pedagógica ou neurológica. O que se busca é ajudar a criança a perceber qual é o seu lado dominante e a usá-lo com consistência, seja ele qual for. Para crianças com lateralidade ainda indefinida, o professor pode observar em qual mão o desempenho é mais preciso e mais fluido, e gradualmente favorecer o uso desse lado nas atividades que exigem coordenação fina.

5. Brincadeiras de orientação espacial com referência corporal

A lateralidade não existe isolada da orientação espacial — elas se constroem juntas e se sustentam mutuamente. Brincadeiras como "Simão Manda" com comandos laterais ("Simão manda levantar a mão direita", "Simão manda dar um passo para a esquerda"), circuitos com setas indicando o lado para onde virar, ou jogos de percurso em que a criança precisa seguir instruções como "vire para o lado do seu braço que escreve" são propostas que trabalham os dois processos ao mesmo tempo. Quando a criança começa a usar o próprio corpo como referência para se orientar no espaço — e não apenas pontos externos como "do lado da janela" — isso indica que a lateralidade está se consolidando de uma forma que vai ter impacto direto na leitura e na escrita.

6. Registro e acompanhamento ao longo do tempo

Por fim, uma prática que transforma completamente a qualidade do trabalho com lateralidade: registrar o que o professor observa. Anotar qual mão a criança usou em cada atividade, em qual lado ela tem mais dificuldade de equilíbrio, se o cruzamento da linha média ainda gera hesitação, se a dominância está se tornando mais consistente ao longo das semanas — esse acompanhamento longitudinal é o que permite ao professor perceber progresso, identificar estagnação e decidir quando uma dificuldade já está além do que a sala de aula consegue resolver sozinha. Lateralidade indefinida que persiste depois dos 7 anos merece atenção especializada, e é o professor que tem esse histórico registrado quem vai conseguir fazer o encaminhamento mais preciso e mais útil para a família. Para quem quer se aprofundar nesse tema com materiais que combinam teoria e prática de forma acessível, o acervo sobre psicomotricidade do Quero Conteúdo tem conteúdo estruturado especificamente para professores que trabalham com desenvolvimento infantil no dia a dia.



Estamos te dando de graça. Escolha sua área:
Guia Completo para Trabalhar com Esportes
Guia Fisiologia do Exercício Aplicada
Guia Prático de Exercícios de Psicomotricidade para a Sala de Aula
Ebook Aprendendo com Jogos na Escola
Receba nossos links no Telegram e no Whatsapp .

Nenhum comentário