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Atividade física como meio e não como fim na Educação Física Escolar







Qual seria a justificativa para termos Educação Física em todas as séries de escolaridade? Sei que a maioria dos professores é capaz de dar justificativas, algumas boas, outras nem tanto, como eu também. Mas a questão continua porque até hoje a inclusão da Educação Física não está justificada na legislação, nem no seio da profissão, nem no bojo da estrutura educacional e nem perante a sociedade.  Isto desestrutura a profissão e a expõe a improvisações. Acredito que isto não seja exclusividade da Educação Física mas de muitas disciplinas.

A legislação atual nos oferece o modelo de iniciação esportiva. Ora isto não é justificativa educacional. Se o propósito da educação é a de formar indivíduos e cidadãos íntegros não podemos ter, como argumento para nossa profissão de incentivar a formação de atletas. Ser atleta não é tão importante assim  para a vida para que isto seja objetivo educacional central. Na verdade esta legislação foi-nos imposta pelos militares porque estavam descontentes com o desempenho do Brasil nas competições internacionais. Impuseram assim esta lei que, além de mal redigida, não produziu nenhum efeito pretendido. Nem educacional nem nas competições internacionais.

A falta desta justificativa impede uma série de medidas. Dar Educação Física deve ser necessário para que se consiga cumprir os objetivos educacionais que a escola persegue. Sabemos, da educação, que a escola procura educar jovens para que se tornem indivíduos sãos, capazes, críticos e autônomos, bons cidadãos, interessados e partícipes na sociedade em que vivem, inclusive para quererem modificá-la se acharem isto necessário. Seria uma forma simples em linguagem simples de enunciar os objetivos da educação. A justificativa da Educação Física teria que se enquadrar nos objetivos da educação.

Certamente fazer os jovens melhores atletas internacionais não cabe dentro destes objetivos educacionais como objetivo maior. Se coubesse saberíamos que os que não fossem bons atletas não seriam bons cidadãos.  Se a legislação não é coerente então que Educação Física damos nas escolas? Como justificá-la?

Acredito que o caminho da resposta esteja em outra pergunta: o que a Educação Física pode fazer para ajudar os jovens a serem melhores indivíduos e cidadãos? Na sociedade de hoje sabemos que a performance física não é mais importante em si, mas sim a qualidade de vida. Sabemos, por outro lado, que o sedentarismo é prejudicial aos indivíduos. Teríamos então uma Educação Física voltada para combater o sedentarismo, para a aquisição de hábitos de atividade física. Mas seria uma atividade física voltada para os aspectos de saúde e bem estar, não para a performance física. Mas além disto o que pode a Educação Física dar e ajudar na formação de indivíduos e cidadãos que as outras disciplinas não podem (pelo menos sozinhas ou com a mesma eficiência)?

Deve também estar claro que temos uma faixa enorme de alunos na faixa dos que lutam pela sobrevivência, prisioneiros que são da pobreza e miséria. Não podemos aceitar iniciação esportiva e/ou melhora da performance como objetivos principais da Educação Física para esta clientela. Que objetivos deverá então ter a Educação Física para estes alunos?

Talvez a maior riqueza da Educação Física em relação às outras disciplinas está em que ela não é tão dependente em passar conhecimentos. As outras disciplinas estão inteiramente vinculadas ao conhecimento. Conhecimentos que, argumenta-se, são necessários para uma vida melhor, como saber fazer contas, saber se comunicar, entender a história, etc.. Há também uma seriação nestes conhecimentos. Aprende-se a contar, depois as quatro operações, depois outras manipulações numéricas. Isto ocorre em todas as disciplinas, sempre em torno de conhecimento.

Esta seriação justifica (em termos) o uso da reprovação. Um aluno não pode aprender equação do primeiro grau antes de aprender as quatro operações e assim por diante.

A Educação Física não tem esta característica, nem de conhecimento nem de uma seriação definida. Tanto que há uma enorme liberdade na escolha do que se vai oferecer. Não há, por exemplo, nenhum motivo para que se dê voleibol antes de basquete, ou basquete depois de futebol. Mais do que isto, não há nenhum motivo para que se dê qualquer uma atividade específica. As atividades são meio e não fim em si. Nenhuma delas é  pré-requisito para as demais. Saber dar saque de voleibol, ou saber fazer um passe no basquete ou dar chute no futebol são pré-requisitos para nada. Muito menos para passar de ano.

Repare que não há conteúdo obrigatório na nossa disciplina, há total liberdade na escolha nas atividades que serão oferecidas aos alunos. As escolas, bem ou mal, dão o mesmo conteúdo em todas as disciplinas, exceto em Educação Física (o que faz sentido).

A conclusão que tiro dai é que estes ensinamentos de gestos  não são importantes em si mesmos. Na verdade, repito,  a atividade é um meio, não é um fim. Ela é meio para combater o sedentarismo, mas saber dar saque ou saber dar um arremesso não pode ser tão importante para todos os indivíduos e cidadãos de uma sociedade. Ser sedentário, ao contrário, é algo em detrimento de qualquer indivíduo e  cidadão, que sofrerá limitações por isto. O importante é que se faça atividade física, mas não necessariamente esta ou aquela atividade.

Tomaz L. Ribeiro

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Sobre - Educação Físicaa

Professora de Educação Fisica, pós-graduada em Treinamento Desportivo e que tem atuação em Educação Fisica Escolar, Avaliação Fisica e Personal Trainer. Twitter: @educacaofisicaa
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